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Incidente de dados na clínica: o que fazer nas primeiras 72h

Quando ocorre um incidente de dados na clínica, o profissional de saúde tem um prazo muito curto para agir: para incidentes com risco relevante aos titulares, a regulamentação da ANPD estabelece comunicação em até 72 horas. Nem todo incidente precisa ser notificado, mas todos precisam ser avaliados. Entender o que fazer nas primeiras horas evita que um problema técnico vire um problema legal.

O que conta como incidente de dados

Um incidente de dados é qualquer evento que comprometa a confidencialidade, integridade ou disponibilidade de dados pessoais dos seus pacientes. Na prática, isso inclui situações bem diferentes entre si:

Acesso não autorizado: alguém que não deveria acessou os dados dos pacientes. Pode ser um ex-funcionário que ainda tinha acesso ao sistema, um familiar que viu o prontuário de outra pessoa ou um invasor externo.

Perda de dados: notebook roubado com informações de pacientes, arquivo deletado sem backup, HD corrompido com prontuários.

Vazamento acidental: envio de dados de um paciente para o e-mail errado, compartilhamento de arquivo com destinatário incorreto, arquivo de dados exposto publicamente por configuração errada de permissão.

Ataque de ransomware: sistema invadido e dados criptografados pelos atacantes, geralmente com pedido de resgate.

Exposição por sistema terceiro: o sistema de gestão que você usa sofreu uma violação e os dados dos seus pacientes foram expostos. Nesse caso, a responsabilidade de notificação é compartilhada entre o sistema e o profissional.

Nem todo incidente precisa ser notificado: como avaliar

Antes de sair notificando, é preciso avaliar o risco real do incidente. A obrigação de notificar a ANPD e os pacientes existe quando o incidente "pode acarretar risco ou dano relevante aos titulares" (LGPD Art. 48).

Os fatores que aumentam o risco:

Tipo de dado exposto: dados de saúde são sempre considerados sensíveis. Um incidente que expõe prontuários psicológicos, registros de fisioterapia ou qualquer informação clínica tem risco elevado por definição.

Quantidade de pacientes afetados: 1 paciente exposto é diferente de 500.

Se os dados estavam criptografados: dados criptografados com padrão forte (AES-256, por exemplo) expostos a um invasor são praticamente inúteis sem a chave. A criptografia não elimina a obrigação de avaliar, mas pode reduzir o nível de risco.

Probabilidade de uso malicioso: os dados foram acessados por alguém com intenção clara de usá-los, ou foi um acidente sem exposição a terceiros?

Se o incidente envolve dados de saúde de pacientes e há dúvida sobre o risco, o caminho mais seguro é notificar.

O que fazer nas primeiras 72 horas

O tempo importa. Quanto mais rápido você agir nas primeiras horas, maior a chance de conter o problema antes que ele se agrave.

1. Conter o incidente (primeiras horas)

O primeiro passo é parar o vazamento ou o acesso não autorizado. Dependendo do que aconteceu, isso pode significar:

  • Trocar senhas imediatamente

  • Revogar acessos de pessoas não autorizadas

  • Desconectar o sistema da internet temporariamente

  • Contatar o suporte do sistema de gestão

2. Documentar o que aconteceu

Anote tudo antes que os detalhes sumam: quando você descobriu, o que estava exposto, quais dados, quantos pacientes, qual foi a causa provável. Esse registro é necessário tanto para a notificação quanto para a sua própria análise.

3. Avaliar o risco

Com as informações coletadas, avalie se o incidente se enquadra na obrigação de notificação: dados de saúde foram expostos? Quantos pacientes? Os dados estavam criptografados? Existe risco real de dano?

4. Notificar a ANPD se necessário

Para incidentes com risco relevante, a comunicação à ANPD deve acontecer o mais rápido possível, dentro das 72 horas a partir da descoberta. Se a investigação ainda está em andamento, é possível fazer uma notificação preliminar e complementar com mais informações depois.

5. Comunicar os pacientes afetados

Se há risco real para os titulares, os pacientes precisam ser informados. A comunicação deve ser clara, direta e sem minimizar o problema.

6. Preservar evidências

Não apague logs, arquivos de sistema ou qualquer registro do que aconteceu. Essas evidências podem ser necessárias em investigação posterior.

Como notificar a ANPD

A notificação é feita pelo portal da ANPD em gov.br/anpd. O formulário pede:

  • Data e hora da descoberta do incidente

  • Tipo de dado afetado (dados de saúde, dados de contato, financeiros)

  • Número aproximado de titulares afetados

  • Descrição do que aconteceu

  • Medidas tomadas para conter o incidente

  • Contato do responsável pelo tratamento

Se a investigação ainda está em andamento quando você notifica, informe isso. A ANPD aceita notificações preliminares com complementação posterior.

O que comunicar aos pacientes

A comunicação com os pacientes precisa ser clara e útil, não tranquilizadora a ponto de ser vaga. Inclua:

  • O que aconteceu, em linguagem simples

  • Quais dados foram afetados

  • O que você já fez para resolver

  • O que o paciente pode fazer para se proteger (trocar senha se for o caso, ficar atento a usos indevidos dos dados)

  • Canal de contato para dúvidas

Evite linguagem excessivamente técnica ou jurídica. O paciente precisa entender o que aconteceu com os dados dele.

Como evitar que aconteça de novo

Depois que o incidente estiver resolvido, a análise de causa raiz é o passo mais importante. Algumas perguntas para guiar:

  • O incidente teria acontecido se os dados estivessem criptografados por campo?

  • Havia acessos desnecessários de pessoas sem necessidade de ver os dados?

  • Existia autenticação de dois fatores no sistema?

  • Os backups estavam funcionando e foram testados?

  • O sistema de gestão tem trilha de auditoria que registra quem acessou o quê?

A maioria dos incidentes em consultórios e clínicas pequenas tem causas evitáveis: senha fraca, acesso compartilhado, sistema sem criptografia adequada, backup inexistente.

Checklist: resposta a incidente de dados

  • Incidente contido: acessos revogados, senhas trocadas, sistema isolado se necessário

  • Documentação feita: o quê, quando, quais dados, quantos pacientes, causa provável

  • Avaliação de risco concluída: dados de saúde expostos? Criptografia presente? Risco real?

  • Notificação à ANPD enviada dentro de 72 horas (se risco relevante)

  • Pacientes afetados comunicados de forma clara e útil

  • Evidências preservadas: logs, registros, capturas de tela

  • Análise de causa raiz realizada

  • Medidas preventivas implementadas para evitar recorrência

Perguntas frequentes

Preciso notificar a ANPD para qualquer incidente? Não. A obrigação existe quando o incidente pode causar risco ou dano relevante aos titulares. Um arquivo enviado para o e-mail errado mas recuperado imediatamente, sem possibilidade de uso pelo destinatário, tem risco muito menor do que um banco de dados com prontuários acessado por invasor externo.

E se o sistema de gestão que uso for invadido? Você continua sendo responsável pelos dados dos seus pacientes como controlador de dados. Entre em contato imediatamente com o fornecedor para entender o escopo do incidente, e tome as medidas de notificação necessárias em paralelo.

O que acontece se eu não notificar dentro do prazo? Notificação tardia sem justificativa pode ser considerada infração à LGPD e resultar em advertência ou multa pela ANPD. A boa-fé e as medidas tomadas para conter o incidente são consideradas no processo.

Preciso de advogado para notificar a ANPD? Não é obrigatório. O formulário da ANPD foi desenhado para ser preenchido pelo próprio responsável pelo tratamento. Para incidentes mais complexos ou com grande número de afetados, apoio jurídico é recomendável.

Dados criptografados expostos precisam ser notificados? Depende do nível de criptografia e do contexto. Dados com criptografia forte (AES-256 por campo, com chave gerenciada separadamente) expostos a um invasor têm risco muito reduzido porque são ilegíveis sem a chave. Mesmo assim, avalie e documente a justificativa.


Um dos maiores fatores de proteção contra incidentes graves é a criptografia por campo dos dados dos pacientes: mesmo que o banco de dados seja acessado indevidamente, os prontuários são ilegíveis sem a chave. O Clinitra implementa AES-256-GCM por campo, com trilha de auditoria de todos os acessos e autenticação de dois fatores para operações críticas, em todos os planos. Conheça em clinitra.com.br.

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